Como fotografias históricas ganham uma segunda vida no mundo digital

No Dia Mundial da Fotografia e no Dia Nacional do Historiador, entenda como a preservação, pesquisa e contextualização transformam imagens em documentos históricos
19/08/2026

Na Memória da Eletricidade, fotografias históricas ganham nova vida no digital. Foto: Acervo Memória da Eletricidade

A fotografia e a história mantêm uma relação próxima, capaz de registrar e compreender fatos e acontecimentos. A imagem congela um pedaço do tempo, registrando pessoas, lugares, objetos, construções e modos de vida, fragmentos que podem se transformar em fontes para a compreensão do  passado. 

Mas, para contar uma história, a fotografia precisa ser interpretada. É necessário compreender o que está retratado, onde e quando a imagem foi feita, por que aquela cena foi registrada, o que revela e qual é o contexto no qual está inserida, entre diversos outros fatores. 

Assim, a imagem chega ao historiador, responsável por investigá-la e, a partir disso, podendo servir como ponto de partida para novas descobertas e interpretações, capaz de reconstruir aspectos passados que poderiam permanecer desconhecidos ou pouco documentados. 

Não à toa, o Dia Nacional do Historiador e o Dia Mundial da Fotografia são comemorados na mesma data, neste 19 de agosto. Para a formação e consolidação de acervos, esta relação é imprescindível, e, no acervo iconográfico da Memória da Eletricidade, as fotografias são parte da espinha dorsal.  

Fundada em 1986, com objetivo de preservar e difundir a história do setor elétrico brasileiro, a instituição construiu, ao longo dos seus quase 40 anos, um acervo documental composto por quase 148.832 mil itens (com 226.375 mil páginas digitalizadas). Destes, 37.664 mil são classificados como iconográficos, com 24.824 mil sendo fotografias históricas que documentam a evolução da infraestrutura, grandes obras e o cotidiano do setor elétrico brasileiro, além de registros pessoais de profissionais da área 

Para Vanessa Baranda, historiadora e técnica em arquivo da Memória da Eletricidade, a fotografia é uma fonte indispensável para a pesquisa histórica, especialmente no estudo do setor elétrico brasileiro. Ela destaca que as imagens permitem acessar dimensões que nem sempre aparecem da mesma forma em documentos escritos, como diferentes etapas da construção de uma usina, a instalação de linhas de transmissão, equipamentos e técnicas de determinada época, além das pessoas, cidades, paisagens e  modos  de  vida  envolvidos  nessas  transformações.   

‘Imagens permitem acessar dimensões que nem sempre aparecem da mesma forma em documentos escritos’, diz Vanessa Baranda. Foto: Acervo Memória da Eletricidade

“Não podemos reduzir uma fotografia apenas a uma ilustração de algo que sabemos por meio de outras fontes. A própria imagem produz conhecimento e pode levantar novas questões e indagações para a pesquisa histórica. No setor elétrico, a iconografia se torna particularmente importante porque estamos falando de uma história  ligada  profundamente  à  transformação  do  território”,  explica. 

A especialista ressalta, porém, que a fotografia não deve ser entendida como um registro puro e neutro da realidade. Para compreender uma imagem, é necessário investigar sua origem, finalidade e contexto de produção e cruzar os elementos observados com outras fontes documentais. 

“É justamente no cruzamento entre aquilo que a fotografia mostra e o que conseguimos apurar sobre sua origem, finalidade e contexto de produção que ela amplia sua potência como fonte histórica”, afirma. 

Na pesquisa iconográfica, para compreender as informações presentes em uma imagem, o processo começa com uma leitura atenta do que é retratado, observando a arquitetura, paisagens, equipamentos, estruturas, veículos, entre outros fatores. A partir disso, as “pistas” encontradas são cruzadas com outras fotografias ou outras fontes documentais. 

“No setor elétrico, há uma particularidade interessante, mas muito comum: muitas estruturas são visualmente semelhantes. Uma subestação, uma casa de força, determinados equipamentos podem levar facilmente à uma identificação equivocada quando analisados isoladamente, ou por vezes ficarmos sem respostas/evidências. Assim, procuramos sempre reconstruir uma ‘rede de evidências’ ou um ‘fio condutor’: o que pode ser visto na fotografia, quando aquela estrutura foi construída, quais empresas estavam envolvidas, quais equipamentos eram utilizados naquele período, como a paisagem se modificou, etc.”, completa a historiadora. 

Fotografias históricas compondo exposições virtuais 

O trabalho de preservação, digitalização, tratamento e contextualização das imagens permite que registros produzidos em diferentes períodos sejam recuperados e disponibilizados ao público. Um dos principais desdobramentos desse processo são as exposições virtuais da Memória da Eletricidade na plataforma Google Arts & Culture. 

A mais recente, lançada em julho de 2026, destaca a trajetória da usina flutuante Poraquê, que, entre 1950 e 1991, foi responsável por levar energia a cidades de diferentes regiões do Brasil que passavam por momentos de crise de abastecimento. 

A mostra, intitulada A usina flutuante que navegou o Brasil”, reúne, além das fotografias históricas, documentos, registros técnicos e conteúdos audiovisuais que ajudam a reconstruir a rota da embarcação desde sua origem, nos Estados Unidos, até a atuação em território brasileiro. 

 

Trajetória da usina flutuante Poraquê virou exposição virtual. Foto: Acervo Memória da Eletricidade 

Vanessa Baranda afirma que os caminhos para a construção das exposições muitas vezes são revelados durante a dinâmica cotidiana do acervo, de atendimento a pesquisadores, de análise dos assuntos mais procurados e de incorporação de novos conjuntos documentais. “Foi o que ocorreu com a documentação de Poraquê. O contato com o livro de bordo, com as fotografias e com a pesquisa histórica sobre a usina permitiu reunir diferentes fontes e construir a narrativa retratada”. 

Já a primeira exposição, publicada em julho de 2025, apresenta uma narrativa visual sobre a construção da Usina Hidrelétrica Alberto Torres, conhecida como Piabanha, criada para suprir a acentuada demanda de energia elétrica no início do século XX no estado do Rio de Janeiro, em razão do processo de eletrificação que estava em curso. 

"Piabanha, um século de história” foi fruto de uma doação de 400 fotografias e um livro de registro ao acervo da Memória da Eletricidade, realizada por Cesar Rabello Cotrim, neto de César Rabello, engenheiro responsável pelo projeto e construção da usina. Os documentos passaram por um processo de conservação e digitalização realizado pela equipe até serem integrados à mostra e ao acervo digital. 

Outras duas exposições são voltadas à história do Rio de Janeiro. “A energia que iluminou o cotidiano”, realizada em parceria com a Light, convida o visitante a relembrar o processo histórico de urbanização e eletrificação da cidade, conduzido ao longo do século XX. É formada por fotografias raras de Augusto Malta, responsável pelos principais registros do período de modernização do Rio, presentes no acervo da concessionária. Dividida em sete blocos, com 33 imagens ao todo, a mostra traça uma linha do tempo de 1880 a 1980, destacando como a reestruturação e, consequentemente, a chegada da luz elétrica contribuiu para a transformação do espaço urbano, da mobilidade, da iluminação pública e doméstica e dos hábitos culturais dos cariocas. 

Por fim, A Exposição Nacional de 1908” recupera imagens raras do evento que celebrou o centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas e buscava mostrar como o país estava desenvolvido nos ideais de civilização da época. Também com registros de Augusto Malta, a exposição destaca os principais pavilhões e palácios erguidos para a ocasião, como o Palácio dos Estados, Palácio das Indústrias e as representações estaduais, institucionais e culturais. A solenidade ocupou uma área de 182 mil m² e recebeu, entre agosto e novembro de 1908, mais de 1 milhão de visitantes. Esse tipo de celebração era comum no período. 

Exposição Nacional de 1908 foi marco no desenvolvimento do Rio. Foto: Acervo Memória da Eletricidade

Os países as organizavam para divulgar seus respectivos progressos econômicos, e o Brasil participou de algumas antes de promover a de 1908, como a de Londres (1867), Filadélfia (1876) e Paris (1889).

“O que torna esse processo fascinante é, justamente, a possibilidade de aproximar da realidade cotidiana das pessoas uma história que, por vezes, parece extremamente técnica. Vivemos em um mundo onde a eletricidade é tão incorporada às nossas vidas que raramente percebemos ou paramos para pensar na dimensão histórica da infraestrutura que tornou isso possível. As exposições virtuais ampliam a difusão do nosso acervo e, ao mesmo tempo, reforçam que a história da eletricidade não se restringe apenas à história de empresas, obras e equipamentos, mas também à história de pessoas, territórios e suas transformações”, conclui Baranda.

Acesse o site da Memória da Eletricidade e conheça o acervo iconográfico digital.