El Niño em curso: o que o fenômeno pode provocar no setor elétrico brasileiro
El Niño pode afetar operação das usinas hidrelétricas do Brasil, como Itaipu. Foto: Divulgação / Itaipu Binacional
O fenômeno El Niño, caracterizado por causar o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, se configurou em junho de 2026 e pode se estender até o início de 2027. No Brasil, o evento climático costuma gerar ondas de calor nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, chuvas intensas no Sul e secas no Norte e Nordeste, consequências que podem afetar diferentes etapas do funcionamento do setor elétrico.
O El Niño ocorre quando os ventos alísios, que normalmente sopram de leste a oeste no Pacífico, enfraquecem ou mudam de direção. Com isso, o equilíbrio da circulação das águas do oceano é alterado e o volume de água quente que normalmente se concentra próximo à Oceania se desloca em direção à costa oeste da América do Sul.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), no Brasil, o fenômeno pode gerar eventos climáticos extremos que impactam diversos setores da sociedade e da economia, afetando o abastecimento de água, a segurança alimentar, a geração de energia, a mobilidade, a saúde pública e as atividades produtivas.
Possível “super” El Niño
A intensidade do fenômeno é medida a partir da temperatura das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Em entrevista à Memória da Eletricidade, o geógrafo marinho Eduardo Bulhões explica que entre 0,5°C e 1°C acima da média histórica caracteriza-se um fenômeno fraco; entre 1°C e 1,5°C, moderado; acima de 1,5°C, forte; e, quando as águas superam a temperatura de 2°C, o evento passa a ser caracterizado como um “super” El Niño.
“O fenômeno começou a ser detectado a partir de fevereiro deste ano. Hoje, a anomalia já está em 1,8°C acima da média, e a previsão é de que continue se desenvolvendo pelo menos até o outono de 2027, então por isso há uma probabilidade tão alta da formação de um super El Niño”, explica Bulhões.
Segundo o pesquisador, responsável pelo GeoCosteira, grupo de pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), o evento gera alterações no clima por conta da atmosfera e do oceano serem muito conectados. Então, uma água mais quente promove maior evaporação e direciona mais energia à atmosfera, o que faz com que haja alterações nas posições dos centros de alta e baixa pressão atmosférica.
“Isso gera o que chamamos de ‘teleconexões’, que são as consequências do El Niño para áreas fora do Oceano Pacífico, como o Brasil. São essas teleconexões que contribuem para os efeitos já conhecidos do fenômeno: aumento no volume de chuvas no Sul e seca no Norte e Nordeste. No Sudeste e Centro Oeste, no entanto, as teleconexões são mais diversas”, afirma.
Nos últimos 150 anos, o “super” El Niño se configurou quatro vezes: em 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. O fenômeno de 2023/2024 não foi considerado “super”, mas “forte”. Foi o período em que o Brasil registrou uma das maiores extensões recentes de estiagem, com mais de 80% dos municípios do país atingindo algum grau de seca. Ao mesmo tempo, o Rio Grande do Sul foi atingido por um grande volume de chuvas, o que gerou as enchentes consideradas a maior catástrofe climática da história do estado.
Impactos no setor elétrico
Segundo a Aneel, aproximadamente 43% da matriz de geração de energia elétrica do Brasil é composta por fontes hídricas ou hidráulicas. Das cinco usinas com maior potência instalada, quatro ficam na região Norte e uma no Sul: Santo Antônio (RO), Jirau (RO), Itaipu Brasileira (PR), Tucuruí (PA) e Belo Monte (PA), sendo o Pará o estado com maior capacidade instalada de fontes hídricas, com 22,4 GW. Portanto, os efeitos do El Niño na distribuição espacial das chuvas podem impactar diferentes etapas do funcionamento do sistema elétrico brasileiro.
Usina Hidrelétrica Tucuruí, operada pela AXIA Energia, é a segunda maior do Brasil. Foto: Divulgação / AXIA Energia
A conexão entre fenômeno climático e a geração hidrelétrica está nas chuvas e nas vazões dos rios. Quando a precipitação diminui em regiões importantes para o sistema, pode haver redução da quantidade de água que chega aos reservatórios e, consequentemente, da disponibilidade para geração de energia. Já em áreas onde o El Niño favorece chuvas mais intensas, como no Sul, o desafio é administrar o aumento das vazões.
Diante das diferenças regionais, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acompanha os cenários para antecipar possíveis impactos sobre a operação do Sistema Interligado Nacional (SIN). As estratégias foram apresentadas nesta terça-feira, 11 de agosto, durante o evento “Reflexos do El Niño no SIN”, realizado na sede da instituição, no Rio de Janeiro.
São realizadas avaliações com horizonte de seis meses, considerando panoramas inferiores e superiores de afluência aos reservatórios. Os estudos são apresentados ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) e podem identificar a necessidade de eventuais medidas de segurança energética.
Durante o evento, Paulo Diniz, especialista da gerência de recursos renováveis, explicou como o ONS avalia as condições das hidrelétricas.
Na região Norte, onde a tendência é de menos chuvas, o acompanhamento se concentra nas vazões de bacias que abastecem, principalmente, as usinas a fio d'água, que não possuem um grande reservatório e dependem do fluxo dos rios para gerar energia. Nesse caso, uma redução pode limitar a operação. A UHE Belo Monte, dependente das condições de vazão do rio Xingu, está entre as geradoras que podem ser afetadas.
Belo Monte foi construída no modelo fio d’água, sem grandes reservatórios. Foto: Divulgação / Norte Energia
Já no Sul, o ONS trabalha com estratégias de controle de cheias para criar uma margem de segurança antes das chuvas, tendo estabelecido os volumes de espera para cada reservatório e as regras para operação. A preocupação maior está no extremo Sul, onde ficam as bacias do rio Jacuí e do rio Iguaçu. É planejado o controle hidráulico delas, com objetivo de obter uma margem de folga operativa antes da ocorrência de eventos intensos.
Como o sistema se prepara
Uma das ações preventivas reforçadas pelo CMSE para garantir o abastecimento de energia durante o El Niño é a redução das defluências das hidrelétricas, com objetivo de liberar menos água dos reservatórios e preservar os níveis de armazenamento.
Nesse contexto, Diniz mostrou que os níveis de energia armazenada nos reservatórios são considerados favoráveis. No Sudeste e Centro-Oeste, estavam em 62%; no Sul, em 85%; e, no Norte, em 88%, todos próximos dos valores registrados em anos anteriores. No Nordeste, o índice era de 82%, acima do observado nos anos anteriores.
Além disso, o engenheiro destacou que o sistema elétrico brasileiro se tornou mais diversificado e menos dependente exclusivamente da geração hidráulica, com o desenvolvimento das fontes solar, eólica, biomassa e micro e minigeração distribuída. Assim, uma situação de insegurança hídrica não representaria, necessariamente, insegurança no abastecimento de energia elétrica.
Em julho, o ONS solicitou a todos os proprietários de termelétricas do país que os empreendimentos estejam de prontidão para permitir o atendimento energético em caso de necessidade, a partir de setembro, para quando o início do período mais crítico está previsto. A medida busca garantir uma alternativa de geração caso seja necessário preservar a água dos reservatórios.
No Sudeste e Centro Oeste, o principal efeito do El Niño costuma ser as ondas de calor. Conforme explica Christiane Machado, meteorologista do ONS, esses efeitos conseguem ser previstos e levados para dentro da programação, por levarem dias para se formar, diferente dos tornados e tempestades.
A especialista destaca que as ondas elevam o uso de ar-condicionado, impactando na carga do SIN. “No El Niño de 2023/24, o Rio teve 13 horas média de desconforto térmico, chegando a registrar 43,8°C. As pessoas precisam estar em ambientes refrigerados”, afirma.
Em casos de tempestades severas, a principal preocupação do ONS é com ventos acima de 90 km/h, que têm força para derrubar torres de transmissão. Atualmente, são monitorados 13.571 km de linhas de transmissão — referente às áreas mais importantes —, com 216 estações meteorológicas, 10 radares e 2 coberturas de sensores de descarga atmosférica.
Os efeitos sobre o sistema também podem chegar ao consumidor por meio dos custos de geração e das tarifas de energia. Um estudo da Ampere Consultoria e da TR Soluções estima que um eventual “super” El Niño pode ampliar, em média, em 2,1 pontos percentuais a variação das tarifas dos consumidores de baixa tensão em 2027. Quando considerados também os efeitos das bandeiras tarifárias, a diferença média pode chegar a 4,5 pontos percentuais. A pressão está relacionada, entre outros fatores, à necessidade de preservar os reservatórios e eventualmente recorrer a fontes de geração de maior custo, como as termelétricas.
