Preservar histórias enquanto elas acontecem se torna tendência em instituições culturais
José Luiz Alquéres durante lançamento do livro Depoimento Biográfico, produzido pela Memória da Eletricidade. Foto: Marcus Knoedt | Acervo Memória da Eletricidade
Durante muito tempo, homenagens e registros históricos costumavam chegar apenas no fim de uma carreira ou após a morte de seus protagonistas. Livros comemorativos, exposições, documentários e biografias eram vistos como uma forma de celebrar legados já concluídos.
Nos últimos anos, porém, essa lógica começou a mudar. Cresce, em diferentes áreas da sociedade, um movimento que defende a importância de registrar histórias enquanto elas ainda estão sendo escritas. A ideia é simples: ninguém conta uma trajetória melhor do que quem a viveu.
Esse movimento pode ser observado em diferentes manifestações culturais. O álbum Debí Tirar Más Fotos, do cantor porto-riquenho Bad Bunny, transformou a memória em tema central ao convidar o público a valorizar pessoas, lugares e experiências antes que desapareçam. O sucesso do trabalho reforçou um debate que vai além da música: reconhecer em vida também é uma forma de preservar patrimônio cultural.
No Brasil, essa valorização das trajetórias em vida também tem se refletido no universo da música. Nos últimos anos, artistas como Gilberto Gil, com a turnê de despedida dos grandes palcos Tempo Rei; Caetano Veloso e Maria Bethânia, reunidos na turnê Caetano & Bethânia; e Milton Nascimento, com o documentário Milton Bituca Nascimento, transformaram suas próprias histórias em projetos culturais que celebram décadas de contribuição à música brasileira. Em vez de esperar que esses legados sejam contados apenas pelas futuras gerações, essas iniciativas registram memórias, processos criativos e reflexões diretamente com seus protagonistas, preservando um patrimônio cultural ainda em construção
Cada vez mais, projetos buscam homenagear personalidades públicas, enquanto seus protagonistas ainda podem narrar suas próprias experiências. Museus, universidades, centros de memória e instituições culturais também ampliaram investimentos em programas de História Oral e documentação de trajetórias, entendendo que parte importante da história não está apenas nos documentos, mas nas lembranças de quem participou dos acontecimentos.
A voz de quem viveu
É justamente essa compreensão que orienta uma das principais frentes de atuação do Centro da Memória da Eletricidade no Brasil.
Desde sua criação, em 1986, a instituição desenvolve projetos de História Oral voltados ao registro dos depoimentos de profissionais que participaram da construção do setor elétrico brasileiro. O objetivo é preservar conhecimentos técnicos, processos de tomada de decisão e experiências que dificilmente aparecem em documentos oficiais, permitindo que a história seja contada por seus próprios protagonistas.
Ao longo de quase quatro décadas, seu Programa de História Oral realizou 19 projetos e reuniu quase 300 entrevistados, além dos depoimentos atualmente em produção.
Entre os personagens que compartilharam suas histórias estão Mario Bhering, quarto presidente da então Eletrobras, atual AXIA Energia, e fundador da Memória da Eletricidade; John Cotrim, fundador e primeiro presidente de Furnas; Paulo Richer, primeiro presidente da Eletrobras; e Lucas Lopes, primeiro presidente da Cemig.
Os depoimentos registram não apenas fatos históricos, mas também bastidores, desafios, processos de decisão e transformações que marcaram a evolução do setor elétrico brasileiro ao longo de décadas.
Histórias que se transformam em patrimônio
Os projetos desenvolvidos pela Memória da Eletricidade seguem, em geral, duas linhas de atuação. A primeira acompanha marcos institucionais importantes, como aniversários de empresas, a exemplo dos 50 anos da Eletrobras, dos 35 anos do Cepel e do centenário da Light. A segunda busca reconstruir a trajetória de instituições, projetos ou iniciativas que tiveram papel relevante na história da energia no país.
Os registros ficam disponíveis no acervo da instituição em formatos de áudio e vídeo, tornando-se fonte de consulta para pesquisadores, estudantes e profissionais do setor.
Os depoimentos também dão origem a publicações editoriais, outra importante frente de atuação da Memória da Eletricidade. Em quase 40 anos, a instituição publicou mais de cem obras dedicadas à história do setor elétrico brasileiro, várias delas reconhecidas com premiações, menções honrosas e recomendações em concursos editoriais.
Entre essas iniciativas está a coleção Depoimento Biográfico, criada para registrar, em livro, a trajetória de profissionais que contribuíram para o desenvolvimento da energia no Brasil.
O primeiro volume, lançado em 2023, apresenta a história do engenheiro José Antonio Muniz, ex-presidente da Eletrobras, construída a partir de entrevistas que percorrem décadas de atuação na empresa.
Em 2024, foi publicada a biografia de José Luiz Alquéres, engenheiro, empresário e editor que presidiu a Eletrobras e a Light. O livro reúne mais de 20 horas de entrevistas e reconstrói sua participação no planejamento e na expansão do setor elétrico brasileiro.
Ao centro, o engenheiro José Luiz Alquéres, junto de sua família, durante o evento de lançamento de seu livro biográfico. Foto Marcus Knoedt | Acervo Memória da Eletricidade
O próximo título da coleção será dedicado ao engenheiro Altino Ventura, ex-presidente da Eletrobras, ex-diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional e ex-secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia.
Além dos projetos de História Oral e das publicações biográficas, a Memória da Eletricidade também atua na criação de espaços permanentes de preservação da memória. Um exemplo é o Espaço Cultural Mario Santos, inaugurado em 2026 na sede do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em Brasília. Dedicado à história da operação do Sistema Interligado Nacional (SIN), o centro cultural presta homenagem, ainda em vida, ao engenheiro Mario Santos, primeiro diretor-geral do ONS e uma das figuras centrais na consolidação da operação integrada do sistema elétrico brasileiro. A trajetória profissional é ampliada através de um espaço dedicado a educação, cultura e difusão do conhecimento.
O engenheiro Mario Santos no evento de inauguração do Centro Cultural do Operador Nacional do Sistema (ONS), que recebe seu nome | Acervo Memória da Eletricidade.
Preservar o presente para compreender o futuro
Em um mundo que produz bilhões de fotografias, vídeos e publicações todos os dias, preservar a memória vai além de guardar arquivos. Significa registrar experiências, conhecimentos e decisões que ajudaram a transformar a sociedade.
Documentos revelam o que aconteceu. Os relatos de quem viveu os acontecimentos ajudam a compreender por que eles aconteceram.
Ao registrar essas histórias enquanto seus protagonistas ainda podem compartilhá-las, a Memória da Eletricidade contribui para preservar um patrimônio que ultrapassa a dimensão técnica: o conhecimento humano acumulado por gerações de profissionais que participaram da construção do sistema elétrico brasileiro.
Mais do que olhar para o passado, reconhecer essas trajetórias em vida é uma forma de garantir que elas continuem inspirando o futuro.
Os projetos de História Oral, publicações e o acervo da Memória da Eletricidade estão disponíveis no site.
