Exposição sobre urbanização e eletrificação do Rio reacende debate dos impactos na cidade

Mostra da Memória da Eletricidade, em parceria com a Light, conta a história do processo; historiador detalha as medidas
30/03/2026

Operários trabalhando na obra de implementação da Av. Marechal Floriano, no Centro do Rio. Foto: Acervo Light

A Memória da Eletricidade disponibiliza, desde o final de fevereiro, na plataforma Google Arts & Culture, a sua terceira exposição virtual: “A energia que iluminou o cotidiano: imagens e memórias do Rio de Janeiro”, que rememora o processo de urbanização e eletrificação da cidade desenvolvido ao longo do século XX. Ao revisitar esse percurso histórico, surgiu a necessidade de compreender como os acontecimentos se desenrolaram e os detalhes de cada etapa. 

Dividida em sete blocos, com 33 imagens ao todo, a mostra, organizada em parceria com a Light, traça uma linha do tempo de 1880 a 1980, destacando como a reestruturação e, consequentemente, a chegada da luz elétrica contribuiu para a transformação do espaço urbano, da mobilidade, da iluminação pública e doméstica e dos hábitos culturais dos cariocas. Uma das intervenções mais marcantes foi a Reforma Pereira Passos (1903-1906), realizada no Centro da cidade, que, com objetivo de tornar o Rio uma “Paris Tropical”, abriu a avenida Central (atual Rio Branco), alargou ruas, demoliu os antigos cortiços e construiu edifícios. 

A partir disso, a equipe conversou com Marcus Dezemone, doutor em História e professor de História do Brasil Republicano na Universidade Federal Fluminense (UFF) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O pesquisador detalhou como a urbanização foi conduzida, o papel da eletrificação e os impactos gerados à população, em especial o processo de favelização. Leia a entrevista completa: 

ME: Como foi conduzido o processo de urbanização no RJ no início do século XX? 

MD: No início do século passado, a cidade do Rio ainda conservava traços muito fortes do período colonial, e tinha uma imagem tanto quanto negativa quando comparada a outras capitais da América do Sul. A partir disso, foi durante a administração do presidente Rodrigues Alves [1902] que se começa a buscar mudar essa visão. Ele nomeia à prefeitura da capital o engenheiro Pereira Passos (1836– 1913) e coloca à frente de um amplo programa de reformas vinculadas à dimensão da saúde o médico sanitarista Oswaldo Cruz (1872–1917). 

Esse movimento desencadeou as famosas reformas urbanas, cujo objetivo era abandonar a aparência de cidade colonial, que era evitada, vista como repleta de doenças, promovendo uma modernização. E havia um referencial muito claro, sobretudo para as elites políticas e econômicas que tiveram oportunidade de estudar no exterior, que era Paris, onde as grandes reformas de Napoleão III modificaram até hoje o aspecto da capital francesa, com alargamento de ruas, arborização, uso da eletricidade, iluminação durante à noite... Então, a ideia era transformar o Rio em uma espécie de Paris tropical. 

Nesse esforço, tivemos a Reforma Pereira Passos, consagrada na historiografia com a ideia de requalificação urbana, demolição dos cortiços, alargamento de ruas do Centro e a construção de edifícios, que constituem parte importante do nosso patrimônio histórico, e da avenida Rio Branco, que ligava o porto ao que hoje é o Aterro do Flamengo.  

Historiador Marcus Dezemone concedeu entrevista na sede da Memória da Eletricidade. Foto: Gabriel Rechenioti / Acervo Memória da Eletricidade

ME: Como enxerga o papel da eletrificação para esse processo de urbanização do Rio de Janeiro? 

MD: No fim do século XIX, a eletricidade é vista como símbolo de progresso, das mudanças materiais que o mundo industrializado é capaz de trazer. Por isso, eletrificar a capital federal, que era a principal cidade do país, foi uma forma de dizer que as promessas de “ordem e progresso” da República estavam sendo cumpridas. A chegada dos bondes, por exemplo, com a retirada da tração animal, transformou o dia a dia dos cariocas, permanecendo por muito tempo como um dos principais meios de transporte de massa na cidade, muito utilizado pelos trabalhadores.  

A iluminação, que deixa de ser feita a gás, o que causava uma série de acidentes e explosões frequentes, também foi um elemento-chave, além de todas as inovações que a eletricidade possibilita, como o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, jornais, revistas, rádios... Então, a energia elétrica nesse contexto representa uma melhoria nas    condições de vida da população.  

ME: Quais foram os principais impactos da urbanização da cidade do Rio? 

MD: O processo de urbanização caminha de mãos dadas com o processo de industrialização, que é muito veloz, não só no Rio, mas em todo o Brasil. A Inglaterra, por exemplo, o primeiro país a se industrializar no mundo, levou cem anos para ter mais da metade da população vivendo em cidades. A China, que há décadas tem taxas de crescimento de dois dígitos, só se tornou predominante urbana há 15, 16 anos, enquanto o Brasil já atingiu esse marco nos anos 1950. 

As consequências da rapidez desse processo, a dramaticidade, a gente consegue ver das janelas de vários locais do Rio de Janeiro: isso gerou um processo de periferização, de favelização, de inchaço urbano e de imobilidade urbana, que hoje nos afetam diretamente. A cidade tem uma população de cinco, seis milhões, considerando o entorno o número dobra, então é uma das maiores do planeta. O próprio estado tem uma área equivalente à metade de um país inteiro, que é Portugal, e hoje temos 20 milhões de habitantes, enquanto em Portugal vivem 10 milhões. Esses números são muito eloquentes e diferenciam e singularizam muito quando nós pensamos o processo de urbanização do Brasil. 

A demolição dos cortiços impactou muito a condição dos mais pobres, que foram expulsos do Centro da cidade. Esse processo desarticulou uma série de relações sociais e econômicas desenvolvidas naquele espaço, que tiveram de ser reconstruídas nos novos locais de moradia, seja nas favelas, seja nos subúrbios. Consequentemente, nesses territórios, acabou se desenvolvendo uma cultura própria, com elementos posteriormente exaltados nacionalmente, como o samba, o futebol e o carnaval.  

Na época, o Lima Barreto (jornalista e escritor) tinha uma perspectiva que eu acho muito interessante. Ele diz que era como se fosse uma peça de teatro, em que se trocava o cenário, mas os personagens continuavam os mesmos. Ou seja, as reformas não promoveram mudanças profundas, modificando, de fato, as condições sociais.  

ME: A partir desse processo de expulsão e periferização, como se estruturou a vida nos subúrbios do Rio? 

MD: À medida que essa urbanização se desenvolvia, o processo de industrialização ganhou força no subúrbio, já que os terrenos na região eram mais baratos. Por exemplo: onde ficavam as fábricas de tecido? Onde hoje são os shoppings, a Fábrica de Tecidos Bangu e a Companhia de Tecidos Nova América. E quem morava em torno das indústrias, até pelo fácil acesso, eram os proletários, a classe trabalhadora. Também tinha a característica da vila operária, construídas como uma forma de atrair as melhores mãos de obra. 

Até a década de 1940, a classe tinha pouquíssimos direitos regulamentados, o que se modifica no Estado Novo, com a criação da CLT, que não se trata só de uma produção legislativa, e sim uma divulgação associada à figura de Getúlio. Isso gerou algo inédito na história brasileira: pela primeira vez, no que havia de mais avançado nos meios de comunicação de massa, se afirmava que o trabalho e o trabalhador são fundamentais para o Brasil. Quem trabalha no século XIX? Quem não tem liberdade, os escravizados. Já no século XX, se divulgava uma visão positiva do trabalho. 

Bonde elétrico transportando trabalhadores na Avenida Presidente Vargas. Foto: Acervo Light

Acesse a exposição  

“A energia que iluminou o cotidiano: imagens e memórias do Rio de Janeiro”, a terceira da Memória da Eletricidade na plataforma, pode ser visitada gratuitamente. As outras contam a história da Usina Hidrelétrica Alberto Torres (Piabanha), fundamental para a eletrificação do estado do Rio, e da Exposição Nacional de 1908, grande solenidade realizada na cidade. 

A Memória da Eletricidade é uma instituição sem fins lucrativos dedicada à preservação e difusão da história do setor elétrico brasileiro. Desde 1986, realiza projetos de pesquisa histórica, conservação de acervos, produção de publicações e coleta de relatos de história oral, promovendo o conhecimento sobre a trajetória e os desafios da energia no Brasil. Seu acervo reúne milhares de documentos, fotografias, vídeos e registos sonoros que contam a evolução do setor elétrico e podem ser acessados no site.  

Sobre Marcus Dezemone 

Marcus Dezemone é doutor, mestre e graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), além de bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atua como professor de História do Brasil, com ênfase no período republicano, na UFF e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  

Ao longo da sua trajetória, participa de iniciativas voltadas à formação de professores e à avaliação educacional, com atuação em programas como o PIBID e colaboração com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em linhas gerais, seus estudos tratam sobre a questão agrária, conflitos sociais no campo e as transformações do Brasil no período pós-escravidão.